Mistério na Serra do Rola-Moça. Uma história de amor e crime! Ou será que nada disso aconteceu?

Quem conhece Minas Gerais, sabe como são lindas as nossas montanhas. Cidades e vidas construídas em um relevo de tirar o fôlego até mesmo de Deus, que as criou.

Perto de Belo Horizonte, capital Mineira, exite um pequeno povoado, pertencente ao município de Brumadinho, chamado Casa Branca. Um pequeno paraíso incrustado no meio da mata, descoberta pela coragem dos que vencerem as sinuosas e estreitas estradas que levam até lá.

Quase chegando em Casa Branca, no alto da serra, quando a estrada se cansa de tanto subir, existe um estratégico mirante, que proporciona um dos mais lindos pores-do-sol de que se tem notícia nas Minas Gerais.

Lugar certamente criado por Deus, caprichosamente, para a contemplação, sempre visitado por casais enamorados, e pelos que não se fartam de curtir o belo espetáculo que a natureza proporciona.

O local fica dentro do Parque Estadual da Serra do Rola-Moça, assim apelidado por um conto popular, segundo o qual, após uma cerimônia de casamento, marido e mulher cavalgavam em destino à sua casa, quando o cavalo, guiado pela mulher, caiu na ribanceira, indo ao fundo do grotão.

O marido, desesperado, teria igualmente cavalgado em direção ao abismo, em busca de sua amada, tendo ambos morrido, de forma trágica, em uma curta estória de amor e morte.

1º. ATO

Uma jovem mulher, com idade entre 20 e 25 anos, olhava fixamente para o abismo. Estranhamente, começou a caminhar, lentamente, em direção à borda do penhasco, ficando, a cada passo, em situação cada vez mais perigosa.

Percebendo que algo na situação não estava normal, algumas das pessoas que por lá estavam, registrando o espetáculo da natureza em seus celulares e mentes, chamaram a polícia que, rapidamente, compareceu ao local.

Tentativas de contato, sem resultado. A cada aproximação dos valentes policiais, a mulher se encaminhava, ainda mais, para a beira do abismo. Ignorava os apelos, como se estivesse hipnotizada por uma tristeza profunda, sem se importar com a beleza deslumbrante do local, principalmente do sol, que se preparava para se por.

A tensão não parava de crescer.

Repentinamente, um homem que passava vagarosamente pelo local, conduzindo uma robusta motocicleta, aproximou-se da cena. Sem muitas delongas, desceu do poderoso veículo e aproximou-se da mulher, dizendo-lhe:

– Menina, você está muito linda para morrer. Posso me aproximar?

Era um homem de pouco mais de 30 anos. Apesar da pouca idade, já apresentava seus cabelos levemente grisalhos. A pele bronzeada pelo sol envolvia o corpo forte e musculoso.

Estranhamente, a mulher que até então parecia estar totalmente anestesiada pela dor, prostrada diante do abismo que parecia ser seu destino, consentiu com um gesto afirmativo a aproximação do homem que, sem hesitar, postou-se ao seu lado.

Pela eternidade que duraram alguns segundos, ambos ficaram ali, parados, um ao lado do outro, olhando ambos para o lindo pôr do sol, que já se iniciara. A pequena multidão que se formara assistia a tudo, calada, um misto de tensão e esperança.

O homem, então, virou-se de frente para ela, que o acompanhou no movimento sutil. Como nos filmes de ação, mesclados por um romance improvável, algo aconteceu naquele olhar. Ambos ficaram, um de frente para o outro, tendo o abismo como companheiro, e o lindo espetáculo da natureza, ao fundo, como paisagem, em um verdadeiro show de luzes e sensações.

O homem, de forma inusitada, mágica e muito carinhosa, pediu à bela mulher:

–  Você me daria um beijo antes de se atirar no abismo?

Ela sorriu, de forma tímida, e, um pouco envergonhada, fechou os olhos, consentindo silenciosamente. Ele, então, aproximou-se ainda mais, até que seus corpos se colassem. Deu-lhe um beijo na boca, longo e romântico, para os aplausos emocionados de todos que acompanhava a inusitada cena de amor.

No exato momento em que seus lábios se separaram, o homem, ainda segurando as delicadas mãos da garota, olhou profundamente nos olhos dela e perguntou-lhe:

– Porque você quer se matar? Se consegue ser mais linda que o mais lindo dos pores de sol?

Ela respondeu:

– Eu queria tirar a minha vida porque os meus pais não me deixam vestir de mulher, nem aceitam que eu opere e faça mudança de sexo.

Até agora ninguém sabe se foi ela que pulou ou foi o misterioso homem que a empurrou…

2º. ATO

Para tranquilizar os leitores que estão, nesse momento, estarrecidos com o trágico final, informo que essa estória jamais aconteceu. Recebi, como piada, em um grupo de whatsapp, e resolvi dar alguma utilidade a ela.

Milhares de transsexuais são vítimas no Brasil de diversos tipos de violência, sejam as clássicas agressões corporais, sejam as mais cruéis formas de tortura psicológica e emocional. Até mesmo dentro de suas casas, onde, a grande maioria tem de conviver entre a agonia do anonimato e a covardia do preconceito, inclusive daqueles que são biologicamente programados para lhes amar.

Somos um País de machões, que exercem suas fobias de forma impiedosa contra homens e mulheres trans, simplesmente porque não os conhecemos, ou não os entendemos. Para milhares de pessoas, fatos simples de nosso cotidiano, tornam-se um verdadeiro pesadelo, como, por exemplo, frequentar um banheiro público.

Motivos de piadas, a vida dos transsexuais fica mais difícil a cada dia, motivo pelo que, usei do recurso do humor, ainda que em sua forma cruel, para chamar a atenção das pessoas de bem para nossos irmãos, que vivem em dor, e sofrem pelo escárnio e pela maldade dos chamados “normais”.

Eu me sinto em dívida, sim!

Vergonhosamente, confesso que não somente já ri de piadas de mau-gosto, envolvendo a comunidade trans, como já as propaguei, até que, há alguns anos, eu me deparei com uma cena que mudou a minha maneira de pensar.

Moro em um bairro de classe média de Belo Horizonte. Adoro sair aos domingos, pela manhã, comprar pães quentinhos e tomar um delicioso café da manhã, com queijo Minas e, de vez em quando, é claro, saborear nossos deliciosos pães de queijo.

Meu bairro é cheio de padarias e sempre costumo andar, entre uma e outra, para achar exatamente aquela que acabou de tirar uma fornada bem fresca e quentinha.

Em um desses domingos, quando retornava à minha casa, uma cena me aterrorizou, marcando-me para o resto de minha vida.

Uma mulher trans encontrava-se desmaiada, toda machucada, jogada no canto de uma calçada. Os ferimentos pelo corpo eram muitos, mas o que mais preocupava era um corte enorme na cabeça da mulher.

As pessoas passavam por ela e nada faziam. O ferimento da cabeça já tinha uma parte coagulada, o que demonstrava que, seja lá o que tivesse acontecido com ela, já fazia algumas horas.

A alguns metros de distância havia uma farmácia. Corri até lá e chamei o balconista (o farmacêutico não estava). Ele, prontamente, foi até o local comigo e disse que a mulher precisaria de pontos com urgência. E de fazer um exame de imagem. Aconselhou-me que não tocasse nela, pois eu poderia agravar as lesões, no caso de algo na coluna.

Eu sou Advogado, gente, e já trabalhei em diversos casos envolvendo lesões graves. Já prestei socorro em acidentes em estradas, já vivi um bocado de coisas bem complexas. Mas confesso: poucas experiências na vida me afetaram tanto como a daquele dia.

Acionei a Polícia Militar, que chegou quase instantaneamente. Alguma alma bondosa já tinha chamado o serviço de emergência médica – SAMU, que chegou quase quarenta minutos depois de acionado, mas somente dez minutos depois da polícia.

Rapidamente, os hábeis profissionais iniciaram os primeiros atendimentos. Em seguida, a mulher foi imobilizada na maca e colocada, ainda inconsciente, dentro da viatura, que seguiu, certamente, para algum hospital de traumas, provavelmente o Hospital João XXIII, um dos melhores do Brasil, muito pouco divulgado pela mídia, lamentavelmente.

ATO FINAL

As estatísticas ainda são muito confusas, mas nunca a comunidade trans foi tão vítima de atos extremos de violência e preconceito praticados por criminosos, disfarçados de pessoas comuns. Os crimes motivados pela homofobia, igualmente, propagam-se pelo Brasil afora.

Uma análise superficial poderia indicar que existe uma relação clara entre os dois fatos acima. E provavelmente há, já que muitas pessoas, mesmo que digam o contrário, ainda estão longe de aceitar como normais as manifestações “não convencionais” da sexualidade humana.

Um fato adicional, todavia, chama particularmente a atenção, obrigando-nos a ampliar a avaliação desses fenômenos: dispararam as estatísticas dos crimes praticados contra as mulheres. Igualmente crescem os crimes motivados pelo racismo.

O que todos os casos acima possuem em comum? O ódio!

Sim!

A transfobia, a homofobia, a violência contra as mulheres e as manifestações expressas de racismo encontram o seu fundamento no mesmo sentimento inferior, no caso, o ódio que, levado a extremos, transforma cada vez mais pessoas em agressores e assassinos.

Entender a correlação entre esses fatos sociais é indispensável. Não somente para a implementação de políticas públicas que garantam os direitos das vítimas, reais e potenciais, mas, principalmente, para fins de uma prevenção efetiva, que passa, certamente, pela educação familiar, escolar e social.

Aprendi que o amor é sentido, mas o ódio pode ser ensinado. E, se pode ser ensinado, pode ser evitado, combatendo-o na sua origem, através da conscientização de quem o propaga.

Seja conscientemente, através de atos expressos e criminosos contra nossos semelhantes, seja na forma de piadinhas pretensamente “inocentes”, que transformam o ódio latente em um sentimento hereditário.

“Eduquem as crianças e não será necessário castigar os homens!”

A frase de Pitágoras é perfeita em sua essência. Ousamos, todavia, agregar a ela uma outra citação, de autoria ainda não confirmada, para mim:

“Os defeitos dos filhos são filhos dos defeitos dos pais”.

Se queremos mudar o mundo para melhor, que tal começarmos mudando a nós mesmos? Afinal, que tipo de mundo queremos para os nossos filhos?

É hora de olharmos para dentro de nós e examinarmos se, consciente ou inconscientemente, estamos contribuindo, ainda que de forma mínima, para um mundo pior. Pois a última coisa que um pai quer deixar para seus filhos é o ódio, como legado!

Fiquem com Deus!

André Mansur Brandão
Advogado e Escritor

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