Sua vida não era pior nem melhor do que a de ninguém que ele conhecesse. Não que conhecesse muita gente.

Na verdade, era uma pessoa muito solitária, apesar de estar sempre rodeado de pessoas, sempre barulhentas e desagradáveis.

Tinha um emprego medíocre. Não era bem remunerado, mas seu trabalho não lhe exigia mais do que a presença de seu corpo físico durante aproximadas cinquenta horas semanais, sentado a uma mesa, sempre lotada de documentos sem sentidos, a que lhe cabia destinar para diversos setores da empresa.

Não tinha namorada. Ou namorado, apesar das inúmeras insinuações de seus colegas de trabalho no sentido de uma possível homossexualidade.

Quatro horas por dia eram consumidas dentro de coletivos, ora apertados demais, ora vazios o suficiente.

A única coisa que realmente lhe dava prazer na vida era observar a cidade onde morava. Um balneário praiano, sempre muito frequentado por turistas do país inteiro e muitos de outros lugares do mundo.

Morava de aluguel em um barracão, quarto e sala, em uma casa localizada no final de uma vila de pescadores, próximo a uma ponte que cobria a parte profunda do manguezal, usada por vários veículos para atravessar para o outro lado da cidade.

Ele gostava de ver o encontro do mangue com a parte mais caudalosa do mar.

Da mureta da ponte, dava para ver a exuberância do oceano, tocando o céu, em um espetáculo único que a natureza lhe proporcionava: um lindo horizonte, ora dourado, ora cinzento, que sempre tocado o mar com delicadeza e arte.

Sentar-se perto do acesso à ponte, era realmente a única coisa que lhe proporcionava algum tipo de prazer em sua vida medíocre. Chegava do trabalho e ia para um pequeno banco de cimento, já devidamente estragado pela ação do tempo e da maresia.

E lá ficava, por horas e horas. Até voltar para o cubículo onde morava.

Após uma refeição, requentada e sem sabor, deixada por uma empresa de marmitas, tomava um rápido banho, lavando-se desconfortavelmente na pouca água que gotejava do chuveiro frio.

Banho tomado, roupa limpa, seu corpo cedia, enfim, ao cansaço.

Sua mente adormecia, mergulhando-o na noite. Uma noite longa demais, de sono, mas sem sonhos, que se prolongava até o despertar do dia seguinte, até começar de novo a sua vidinha.

Ele era realmente um completo infeliz!

Durante os fins de semana, o peso de sua vida sem sabor era mais leve. Tinha mais tempo para observar as pessoas que caminhavam, felizes e perfeitas, pela praia, perto da ponte.

Mulheres e homens perfeitos. Famílias ideais, que poderiam ser a sua, com quem não mantinha contato há anos.

Homens e mulheres, correndo como atletas, rostos e corpos perfeitos, como se flutuassem sobre o chão, em uma linda, mas dolorosa sinfonia.

Qual era o critério que Deus usava para distribuir a felicidade? Por que Ele dava tanta coisa para tantas pessoas, enquanto sua vida era tão insossa, tão sem graça?

Repentinamente, uma presença feminina roubou-lhe de seus tristes pensamentos. Não era a primeira vez que ele a via ali. Mas ela estava especialmente deslumbrante naquele fim de tarde.

Se muito, deveria ter uns trinta anos. Seus cabelos, negros e longos, contrastavam com a pele muito clara, mas ligeiramente avermelhada, dando um tom rosado àquela face de anjo, certamente fruto da ação do sol, tomado na dose ideal.

Sempre que passava pelo banco de cimento, perto da entrada da ponte, ela o cumprimentava, educadamente, movendo levemente o rosto. Era o tipo de mulher que sorria com os olhos. Era perfeita!

E como era linda!

Que tipo de homem mereceria de Deus a sorte de desposar aquele anjo de perfeição?

Como seria maravilhoso construir uma família com uma pessoa tão perfeita…

Ela não devia ser como as demais mulheres, que o olhavam por cima, como se ele sequer existisse.

Além de ser linda, ainda era gentil e educada. Certamente não era alguém com quem ele pudesse sequer sonhar. Já que sonhos nunca foram uma opção. Pelo menos não que ele se lembrasse.

Uma mulher perfeita como aquela desposaria um homem perfeito. Teriam filhos perfeitos e viveriam em uma casa luxuosa, confortável, com diversos banheiros e chuveiros com água quente e caudalosa.

Certamente ela deveria ter um emprego empolgante, algo que a fizesse saltar da cama, todos os dias, excitada e vibrante, para irradiar sua perfeição por onde quer que passasse.

Não, sonhar com essa vida, para ele, era quase um pecado. Nunca poderia ser feliz assim. Não com aquela mulher perfeita!

Seus pensamentos foram bruscamente interrompidos por gritos, vindos de um grupo de pessoas que estava perto da ponte. O inexplicável, o impossível aconteceu.

A mulher perfeita havia subido no beiral da ponte e saltado, para a morte certa. Morte confirmada, pouco mais de duas horas depois, após o resgate de seu corpo, outrora tão belo, agora inerte, sem vida.

Socorristas e policiais realizavam suas funções, de forma rápida e hábil, como se estivessem acostumados a lidar com aquela trágica situação com frequência.

Uma multidão de curiosos circundava a cena, enquanto o cadáver da mulher era

examinado por algum tipo de polícia técnica.

O homem aproxima-se de seu corpo.

Reconhece-a imediatamente, principalmente pelos cabelos, ainda molhados e sujos de areia, mas estranhamente sem perder sua viscosidade e beleza. Não havia dúvidas de que era o corpo da mulher perfeita.

Uma espécie de lona preta é colocada sobre seu corpo sem vida. O vento lateral batia fortemente sobre o mar, criando um clima ainda mais bucólico para a triste cena.

Ele sequer sabia o nome daquela mulher.

Permaneceu de pé por mais de duas horas, até o momento em que um carro do Instituto Médico Legal retirou o corpo da praia, fazendo a multidão dispersar-se rapidamente, até sobrar, somente, o homem, que vagarosamente inicia o caminho de sua casa, pensando: o que será que leva uma pessoa a fazer algo tão terrível contra si mesmo?


O conto acima, infelizmente, não somente foi baseado em um caso real, como aconteceu de fato. Pelo menos a parte do suicídio da jovem mulher é totalmente real, tendo acontecido em uma cidade litorânea do Brasil.

Eu estava de férias na região e assisti na reportagem da TV local todos os detalhes dessa tragédia.

O homem que eu usei para criar o conto talvez seja real, talvez não. Um cliente havia me ligado dois dias antes e reclamou muito comigo sobre sua vida, sua tristeza.

As coisas que ele me falava chocavam, por eu nunca imaginar que ele pudesse estar se sentindo tão mal, apesar de as pessoas olharem para a vida dele, de fora para dentro, e desejarem viver aquela vida.

Tudo isso aconteceu por volta das festas de final de ano, período em que crescem muito os casos de suicídios.

Tive diante de mim dois casos reais. Um, de um homem que sofria, por se achar profundamente infeliz. E outro, uma mulher jovem e bonita, que havia saltado de uma ponte, para a morte certa.

Os dois casos conflitavam, mas se completavam. Um, se achava infeliz, mas não sabia de fato o porquê.

A mulher havia atingido tamanho grau de desespero que imaginava não existir outra opção para aliviar a sua dor.

Algo que me chamou muito a atenção foi o fato de que, de acordo com o depoimento de testemunhas, a mulher sequer pensou para saltar. Chegou, subiu na mureta da ponte, e pulou, sem ao menos vacilar.

Nossa profissão de Advogado coloca-nos o tempo todo em contato com desgraças humanas. São frequentes vidas e almas despedaçadas nos procurarem com seus sonhos desfeitos e pesadelos reais.

Por toda a fé que eu tenho em Deus, é claro que sou totalmente contra o suicídio, como forma de alívio para a dor extrema. Eu bem que sei o quanto viver pode ser doloroso.

Sei, entretanto, que viver é maravilhoso, sensacional, e agradeço cada dia de minha vida e da minha família a Deus.

Eu bem que sei que as aparências enganam, como aconteceu no conto acima, que mistura duas realidades em uma fantasia real. Parece confuso, mas não é!

Olhamos a vida das pessoas de fora para dentro. Raros são os que mostram, externamente, seus infernos interiores.

E isso não é nada bom, pois quando alguém consegue, de fato, matar-se, destrói a vida dos que ficam, sejam amigos ou parentes que, além da dor normal da perda de alguém que se ama, ainda se sentirão sempre culpados por não terem percebido uma dor tão grande, que conduz alguém ao ponto de se matar.

Se você está sofrendo, peça ajuda. Sempre haverá alguém que lhe ama. Não cometa o erro de achar que estamos sozinhos nesse mundo.

Parte da tristeza é referencial.

Ficamos ainda mais tristes se comparamos nossas vidas com a das demais pessoas, que se mostram tão felizes, tão perfeitas, como a mulher que se matou, no conto acima e na vida real.

Aconteça o que acontecer, tanto a tristeza extrema, quanto a alegria surreal, vão passar. Tudo é questão de tempo.

E de fé!

Concluo, deixando para vocês uma fábula de Esopo, recontada por La Fontaine que, com rara felicidade, fala sobre como lidar com a tristeza, mostrando que a morte sempre é um desígnio de Deus, um fechamento para a nossa existência terrena, para quer possamos seguir com nossas vidas, em um lugar onde a morte não existe.

Um pobre lenhador, vergado pelo peso dos anos e da lenha, que às costas trazia, caminhava gemendo, no calor do dia, sentindo por si próprio o mais cruel desprezo.

A dor, por fim, foi tanta que ele até parou e, pondo ao chão seu fardo, pôs-se a refletir:

Que alegrias tivera em seu pobre existir? Depois de tanta vida, algum prazer lhe restou?

Faltara, às vezes, pão; descanso, nunca houvera;

Os filhos, a mulher e o cobrador, à espera;

O imposto e a cara feia do soldado…

Ele era um infeliz, completo e acabado!

Pensando nessa falta de alegria e sorte, chamou em seu auxílio da morte.

“Vosmecê me chamou, e eu vim. Agora venha.”

“Só te chamei pra me ajudar com a lenha…”

A morte tudo conserta, mas pressa não deve haver, pois a sentença é bem certa: antes sofrer que morrer.

 

André Mansur Brandão
Diretor-Presidente

ANDRÉ MANSUR ADVOGADOS ASSOCIADOS

 

 

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